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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Apenas uma noite

   Já sentada em sua cama, Fernanda começou a relembrar todos os passos que a levara a chegar até ali. Seu coração palpitava num misto de alegria e desespero e o rosto estava quente e úmido, devido às lágrimas que escorriam ininterruptamente e ela tentava apenas planejar o que faria no futuro.
   Cerca de um mês antes, viajara para um sítio com alguns amigos. Estava solteira a pouco menos do um ano e passava grande parte do tempo com colegas de infância e amigos agregados a eles. Todos solteiros como ela e interessados em apenas uma coisa: curtir a vida adoidado.
   O sol brilhava forte e deixava o feriado, que emendava com um lindo final de semana de verão, ainda mais gostoso. A casa era grande e acomodava bem aquela dezena de jovens que aproveitada os dias entre churrasco, bebidas e banhos de sol à beira da piscina.
   Fernanda já havia passado a casa dos 30. Há pouco tempo, mas passara. Chegara a noivar com o antigo namorado, pensava em se casar e constituir família, mas, com o fim da relação, imaginou que esse seria um sonho que não poderia mais realizar. Queria muito ter um filho, mas, sem um relacionamento estável, não achava viável.
   Ao reencontrar seus antigo amigos e voltar à vida de festa, considerou que poderia ser uma boa ideia ser assim: independente, livre... O amadurecimento e o peso da idade, deram-lhe também estabilidade financeira. Vivia ainda com os pais, era verdade, mais eles já não faziam cobranças; ninguém, além do chefe, que, na realidade, era totalmente dependente dela, fazia cobranças.
   Fora em um sábado a noite que tudo acontecera. Acordaram já quase na hora do almoço e iniciaram o churrasco. Drinks variados também faziam parte do "desjejum". Todos riam e conversavam sobre assuntos desconexos. A bebida já mostrava sinais de estar fazendo efeito, deixando todos mais alegres.
   Já caia a noite, quando Fernanda iniciou uma discussão acalorada com Maurício, irmão mais novo sua melhor amiga do colegial. Falavam sobre futebol e provocavam-se por torcerem por times rivais. Conversaram também sobre trabalho e sobre os tempos de faculdade. Não se lembrava muito bem como havia ocorrido o primeiro beijo, mas sabia que fora bom.
   Beijaram-se repetida e calorosamente. Dos beijos iniciaram-se carinhos sutis, que esquentaram rapidamente em um desejo ardente de possuirem um ao outro. Terminaram juntos em um dos quartos da casa, onde, após uma noite de sexo sem compromisso, acordaram, no dia seguinte, um pouco constrangidos com a situação.
   Não comentaram o fato nos dias posteriores. Chegaram a se encontrar em algumas ocasiões e trataram-se como amigos que sempre foram. Gostava de conversar com Maurício, divertia-se muito com ele, mas não era nada além de um amigo. Era moleque, inclusive. Cinco anos a menos para ele. Não que refletisse no seu comportamento, mas não era alguém que queria namorar. Não era alguém com quem ela queria namorar.
   Um desconforto tomava conta do corpo de Fernanda há algumas semanas. Não sabia ao certo o que era. A menstruação atrasara três dias, o que era estranho para alguém com o organismo tão reguladinho como o dela. Comprara um teste de farmácia, apenas para desencargo de consciência. Passava por uns dias tensos no trabalho e, provavelmente, era isso que provocara o atraso.
   Quando o resultado apareceu positivo, porém, seu corpo todo estremeceu. Sabia exatamente como, quando e onde acontecera. Mas não saberia como, quando e onde contaria para Maurício. Não sabia o que aconteceria e, apesar do desespero, sentia-se feliz, pois realizaria seu sonho de ser mãe.