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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Amor silencioso

   Inês nunca havia feito parte do grupo de garotas populares do colégio. De estatura média, cabelos e olhos castanhos, não tinha nada em si que chamasse muito a atenção dos rapazes. Alguns até a consideravam gordinha, devido às formas volumosas, com seios fartos e quadris arredondados, e a esnobavam. Não sofria com isso.
   Segura de si, sempre se dedicou muito mais aos estudos do que à vida noturna e, hoje, sentia-se grata por ter conquistado uma vaga em uma das melhores e mais disputadas faculdades da cidade. No entanto, mais uma vez, percebia que não seguia os padrões de beleza das garotas que conquistavam o coração dos veteranos bonitões. Não se importava.
   Não era vaidosa. Cuidava-se, mas mantinha sua beleza natural. O cabelo, levemente encaracolado, caído sobre os ombros; roupas bonitas, porém com decotes e comprimentos discretos; batom cor de boca, rímel e o blush apenas para dar uma aparência saudável ao rosto. Não se destacava na multidão.
   Pensava pouco em namorar. Queria encontrar alguém que valesse realmente a pena e não aqueles meninos bobos que só sabiam falar de videogame, futebol e balada. Inteligência lhe era afrodisíaco, mas, tímida, não sabia como demonstrar seu interesse quando esse se manifestava. Sentia-se corar quando alguém lhe cortejava.
   Sempre fora dada a amores platônicos. Amava em silêncio e o amor crescia sempre paralelo à admiração que sentia pelo objeto de desejo. Recentemente apaixonara-se por um rapaz mais velho, mas percebia que as outras meninas, aquelas por quem os rapazes suspiravam, sentiam essa mesma atração por ele e se insinuavam despudoradamente.
   Percebia que ele se sentia constrangido com a situação, embora muitas vezes tentado. Gostava de conversar com ele, além de um conteúdo incrível era de um encanto incomparável. Não sabia como se declarar. Não queria ser mais uma.
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   Apesar de sempre simpático e amigo de todos, Roberto sempre se destacou na escola e, posteriormente, na faculdade. Era o namorado com que toda menina sonhava. Charmoso, educado e esforçado. Chamava a atenção quando adentrava um recinto. Mas, ainda assim, não se envolvia com qualquer pessoa.
   Entrou na faculdade bastante jovem e, ao concluí-la, já emendou uma pós-graduação. Determinado, sabia o que queria e sempre quisera ser professor universitário. Levava jeito para a função. Era paciente, porém dinâmico. Por ser jovem e ter uma linguagem semelhante com a de seus alunos, logo os conquistava.
   Apesar de ótimo professor, a matéria que lecionava não era de tão simples entendimento e, mesmo tendo sempre a turma envolvida, muitas vezes percebia que tinham dificuldades para o entendimento de alguns pontos abordados. Acreditava que sua matéria não devia constar na grade curricular logo para os primeiro anistas, mas a faculdade quisera assim, então se esforçava para fazê-los entender temas tão complexos.
   Constantemente era assediado por uma aluna mais assanhada. Precisavam de nota e logo apareciam com insinuações. Diziam o quanto o professor era bonito e que, por mais difícil que fosse a matéria, tinha o maior prazer em estudá-la. Muitas dessas jovens eram, de fato, lindíssimas, mas não o interessava. Estava ali para trabalhar. Estava feliz com seu emprego e não deixaria que nada lhe atrapalhasse.
   Já ouvira muitos casos de amores entre alunos e professores, mas considerava uma responsabilidade envolver-se apenas por atração carnal. Interessava-se mais por um bom papo do que por um belo corpo e, percebia na menina tímida sentada no fundo da sala, um grande potencial. Era esperta e ia muito bem na matéria. Discreta, tinha uma beleza natural que parecia não reconhecer em si mesma.
   A admirava e sentia que aquela admiração crescia dia após dia. Às vezes se pegava em casa, pensando na jovem de cabelos encaracolados. Lembrava das discussões que tinham após as aulas e lembrava-se do quanto era bom conversar com ela. Não era como as outras e, justamente por isso, ele não sabia se devia se declarar.