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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Fantasias rasgadas

Acordava despida em sua cama fria, mais uma vez sozinha. A maquiagem borrada, o cabelo despenteado e outra fantasia jogada ao lado da cama. Fantasiava-se pois acreditava que era uma maneira de expor também suas fantasias interiores, mesmo aquelas que jamais ousaria exteriorizar.

Sonhava ser atriz, sonhava modelar; sonhava poder assumir todos os personagens que sabia não serem ela mesma na vida real.

Queria ser muitas coisas, queria possuir dons e talentos que via e admirava em tantos outros, mas tinha a consciência de seus limites, especialmente quando comparados com a grandeza de suas expectativas... Precisaria ter sete, catorze, vinte e uma vidas para viver todas as experiências que sonhava. E que vidas tão diferentes seriam essas; diferentes da vida que tinha e diferente entre si.

Quantos anos teria de sobreviver e viver para viver e vivenciar todos os amor e sabarores que imaginava ter e ver?


Talvez estivesse de novo sozinha por não desejar nada menos que o mundo; mundo esse pesado demais para carregar em seus braços frágeis e seu corpo miúdo. Talvez permanecesse sozinha por bastar-se carregando todo o seu mundo dos sonhos na mente e no coração.

Mais uma vez rasgava as fantasias e começava tudo de novo: sabia que ainda chegaria o dia em que encontraria a fantasia dela mesma, aquela que a ajudaria a encaixar-se no mundo que tantas noites fantasiara e que era sim real, apenas não se encontrava disponível. Não ainda, mas um dia.